Para ilustrar este tema transcrevo aqui o manifesto “J’accepte”. Trata-se de um texto escrito por um anónimo em Setembro de 2003 para assinalar os dois anos passados sobre o 11 Setembro, assinado com a frase “fait par amitié sur la terre”, publicado na www (p.ex. http://www.citerre.org/contratmct.htm) e lido numa rádio francesa (http://nseo.com/jaccepte.htm). O texto centra-se no contrato social que cada um de nós subscreve tacitamente ao acordar todos os dias e não fazendo nada para mudar os termos desse contrato. Mais do que uma mera crítica social o texto destaca os factos perturbantes decorrentes da nossa inegável tendência para o conformismo, a indiferença e a desresponsabilização.
Mais recentemente foi realizado um vídeo baseado no mesmo texto por TerPacific (http://terpacific.marcm.free.fr/):
http://www.youtube.com/watch?v=P2ZgHdshogE (versão original em francês)
http://www.youtube.com/watch?v=Zt2PsmDTZOk (versão inglesa)
http://www.desrealitat.org/2011/07/el-contratolo-aceptas.html (versão em castelhano)
Tradução livre do texto original em francês (que pode ser encontrado em http://www.citerre.org/contratmct.htm)
Eu aceito, o contrato tácito do nosso “mundo livre”
Pouco importam as nossas crenças ou as nossas ideias políticas, o sistema posto em prática no nosso “mundo livre” assenta no acordo tácito dum tipo de contrato subscrito por cada um de nós e que inclui as seguintes linhas gerais:
1) Aceito a competição como base do nosso sistema, mesmo estando ciente que este modo de operação gera frustração e raiva na grande maioria de perdedores;
2) Aceito ser humilhado ou explorado na condição de me ser dada oportunidade de humilhar ou explorar todos aqueles que ocupam uma posição inferior a mim na pirâmide social;
3) Aceito a exclusão social dos marginais, dos inadaptados e dos fracos porque eu acredito que a inclusão social tem os seus limites;
4) Aceito pagar aos bancos para investir os meus ganhos conforme a sua conveniência, e que eles não me paguem dividendos dos seus lucros gigantescos (que serão utilizados para roubar os países pobres, o que aceito implicitamente). Também aceito que me cobrem uma comissão elevada por me emprestarem dinheiro, que não é mais do que o de outros clientes;
5) Aceito que se congelem ou se rejeitem toneladas de alimentos para evitar que os preços baixem, em vez de oferecê-los aos necessitados ou permitir que centenas de milhares de pessoas não morram de fome a cada ano;
6) Aceito que seja proibido acabar com a própria vida rapidamente, mas tolero fazê-lo lentamente pela inalação ou ingestão de substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados,
7) Aceito que se faça a guerra para fazer prevalecer a paz. Aceito que em nome da paz, a despesa principal dos Estados se destine ao orçamento da defesa. Aceito ainda que se criem conflitos artificialmente para escoar os stocks de armas e estimular a economia mundial;
8) Aceito a hegemonia do petróleo na nossa economia, apesar de ser uma energia cara e poluente, e concordo que se evite qualquer tentativa de o substituir, mesmo que venhamos a descobrir formas de produzir energia gratuitas e ilimitadas, o que seria a nossa perda;
9) Aceito que se condene o assassinato do nosso próximo, a menos que os Estados decretem que se trata dum inimigo e nos encorajem a matá-lo;
10) Aceito que se divida a opinião pública pela criação de partidos políticos de esquerda e direita que gastarão o seu tempo a lutar entre si, dando a impressão de fazerem assim avançar o sistema. Aceito também todos os tipos de divisões possíveis, desde que me permitam concentrar a minha raiva contra os inimigos designados e de quem agitam o retrato diante dos meus olhos;
11) Aceito que o poder de moldar a opinião pública, outrora detido pelas religiões, esteja agora nas mãos de empresários não eleitos democraticamente e totalmente livres para controlar os Estados, porque estou convencido do bom uso que lhe darão;
12) Aceito que a felicidade se resume ao conforto, o amor ao sexo e a liberdade à satisfação de todos os desejos, pois é isso que a publicidade me transmite diariamente. Quanto mais infeliz, mais consumirei, cumprindo assim o meu papel na contribuição para o bom funcionamento da nossa economia,
13) Aceito que o valor de cada pessoa seja medido pelo tamanho da sua conta bancária, que se aprecie a sua utilidade em termos da sua produtividade, em vez da qualidade, e que seja excluída do sistema se não for suficientemente produtiva;
14) Aceito que se pague principescamente a jogadores de futebol e actores, e muito menos aos professores e médicos encarregues da educação e da saúde das gerações futuras;
15) Aceito que tenhamos desvalorizado socialmente os idosos, cuja experiência poderia ser-nos útil, pois sendo nós a civilização mais avançada do planeta (e, sem dúvida, do universo) sabemos que experiência não pode ser compartilhada nem transmitida;
16) Aceito que me sejam apresentadas diariamente notícias negativas e assustadoras do mundo, para que eu possa apreciar a normalidade da nossa situação e a minha sorte de viver no Ocidente. Sei que manter o medo nas nossas mentes só pode ser benéfico para nós próprios;
17) Aceito que os industriais, militares e políticos se reúnam regularmente para, sem nos consultar, tomar decisões que afectam o futuro da vida e do planeta;
18) Aceito consumir carne bovina tratada com hormonas, sem que esse facto me seja explicitado. Aceito que o cultivo de OGM se vá espalhando por todo o mundo, permitindo que os conglomerados agro-alimentares patenteiem os alimentos, recolham os dividendos resultantes e mantenham sob o seu jugo a agricultura mundial;
19) Aceito que os bancos internacionais emprestem dinheiro aos países que pretendam armar-se e lutar entre si, e escolher assim aqueles que fazem a guerra e aqueles que não a farão. Estou ciente de que é melhor financiar ambos os lados para ter certeza de ganhar dinheiro, e perpetuar os conflitos tanto tempo quanto possível, a fim de pilhar os seus recursos integralmente caso não consigam pagar os seus empréstimos;
20) Aceito que as multinacionais se abstenham de aplicar o progresso social do Ocidente nos países desfavorecidos. Considerando que já é uma melhoria dar-lhes trabalho, prefiro que se usem as leis em vigor nesses países que permitem o trabalho infantil em condições desumanas e precárias. Em nome dos direitos humanos e do cidadão, nós não temos o direito de ingerência nos assuntos internos desses países;
21) Aceito que os políticos sejam de honestidade duvidosa e por vezes até mesmo corruptos. Penso aliás que isso é normal dadas as pressões que eles enfrentam. Pelo contrário, a maioria dos cidadãos deve estar sujeita a tolerância zero;
22) Aceito que as empresas farmacêuticas e os fabricantes de alimentos vendam aos países pobres produtos fora de validade ou utilizem substâncias cancerígenas proibidas no Ocidente,
23) Aceito que o resto do mundo, ou seja, quatro mil milhões de pessoas, possa pensar de forma diferente desde que não venha expressar as suas crenças na nossa terra e muito menos que tente explicar a nossa História à luz das suas noções filosóficas primitivas;
24) Aceito a ideia de que só há duas possibilidades na natureza, a saber, caçar ou ser caçado. E se somos dotados duma consciência e duma linguagem, certamente não é para fugir a essa dualidade, mas para justificar por que agimos dessa forma,
25) Aceito considerar o nosso passado como uma série ininterrupta de conflitos, de conspirações políticas e intenções hegemónicas, mas sei que tudo isso agora já não existe porque estamos no auge da nossa evolução, e que as únicas regras que governam o nosso mundo são a busca da felicidade e da liberdade de todos os povos, como ouvimos incessantemente nos discursos dos nossos políticos;
26) Aceito sem discutir e considero como verdades todas as teorias propostas para explicar o mistério das nossas origens. E aceito que a natureza tenha dispendido milhões de anos para criar um ser humano, cujo único passatempo é a destruição da sua própria espécie, durante os breves momentos da sua existência;
27) Aceito a procura do lucro como o objectivo supremo da Humanidade, e a acumulação de riqueza como o maior feito da vida humana,
28) Aceito a destruição das florestas, a quase extinção dos peixes nos rios e oceanos. Aceito o aumento da poluição industrial e da disseminação de venenos químicos e elementos radioactivos na natureza. Aceito o uso de todo o tipo de aditivos químicos nos meus alimentos, pois estou convencido que se os colocam lá é porque são úteis e seguros;
29) Aceito a guerra económica que grassa no planeta, mesmo que sinta que ela nos levará a uma catástrofe sem precedentes;
30) Aceito esta situação, e admito que não posso fazer nada para mudá-la ou melhorá-la;
31) Aceito ser tratado como gado, porque afinal de contas, acho que não valho mais;
32) Aceito não fazer qualquer pergunta, fechar os olhos perante tudo isto, e não opor qualquer resistência, porque estou muito ocupado com a minha vida e as minhas preocupações. Aceito mesmo defender até a morte este contrato, se tal me for pedido;
33) Aceito pois de alma e coração e de forma definitiva, esta matriz triste que foi colocada diante dos meus olhos para me impedir de ver a realidade das coisas. Eu sei que o fazem para o meu próprio bem e para o de todos, e estou muito agradecido.
(11 de Setembro de 2003)