24 de Abril de 2012

http://www.colectivodarainha.com/

 

Precisamos de outro 25 de Abril? A pergunta devia ser antes "Cumprimos o 25 de Abril de 1974?" É óbvio que não mas, como diz o Rui Tavares, cabe a nós, cidadãos, fazê-lo cumprir!

http://visao.sapo.pt/precisamos-de-outro-25-de-abril=f660578

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 14:01

12 de Março de 2012

 

Foi há um ano que a cidadania em Portugal (re)começou a despertar:

http://www.movimento12m.org/?q=node/211

Cabe a cada um de nós não deixar que volte a adormecer.

Estejam atentos ao mês de Maio.

 

(Imagem: Gui Castro Felga)

 

Ver notícias e comentários:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=543983

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=543933

http://www.agenciafinanceira.iol.pt/politica/geracao-a-rasca-12-marco-tvi24/1332444-4072.html

http://www.publico.pt/Política/geracao-a-rasca-para-onde-foi-a-indignacao-1537357

(não deixa de ser 'curiosa' a escolha de comentadores pelo Público, enquanto que a um dos mentores do 12M reservaram o último parágrafo da notícia - vergonhoso)*

http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=2355627

http://www.ptjornal.com/201203126052/sociedade/como-vive-a-geracao-a-rasca-no-pos-m12m.html

http://aventar.eu/2012/03/12/vamos-a-proxima/

http://www.esquerda.net/opiniao/um-ano-depois-do-12-de-mar%C3%A7o-cidadania-%C3%A9-um-desporto-de-combate/22282

 

* Comentário de Inês Subtil à noticia do Público:

Nem só de manifestações se faz uma revolução

Quem escreveu e quem contribuiu para a construção deste texto esquece-se que a mais poderosa revolução é silenciosa, vai acontecendo pouco a pouco, requere persistência e que sim, já está a acontecer em Portugal. Simplesmente não adquiriu de novo a forma de uma manifestação com as mesmas dimensões, não que isso não possa e não vá voltar a acontecer em breve, mas porque existe mais do que um caminho para se chegar ao mesmo destino. E é nesse caminho que muitos de nós já estão, na procura de soluções que não são nem a austeridade nem a precariedade e pobrezas impostas pelo governo e por nós permitidas. Criar soluções implica trabalhar juntos, construir pacificamente, aprender a comunicar e a ouvir e a tomar o poder que é de todos e que exige a responsabilidade e participação de todos.

publicado por transicao_ou_disrupcao às 23:33

05 de Março de 2012

 

 

“Anyone who believes exponential growth can go on forever in a finite world is either a madman or an economist.”

Kenneth E. Boulding

“Degrowth is today not only an invitation to abandon the obsession with growth and the collective imagination based on unlimited growth, but also the most comprehensive effort to deal with the major phase of discontinuity our civilization is facing.”

3rd Int. Conference on Degrowth (Venice, Sept. 2012)

 

O decrescimento é uma corrente de pensamento que surge como crítica e contraponto ao dogma económico vigente do crescimento permanente e à sua insustentabilidade face aos recursos finitos do planeta (1). Embora tendo a sua génese nos anos 1970 (p.ex. relatórios sobre os limites do crescimento)(2), só recentemente se tornou mais consistente e visível com a realização da primeira conferência internacional sobre o decrescimento económico para a sustentabilidade ecológica e a equidade social em Paris em 2008 (3). Um dos seus defensores mais empenhados é o economista e ensaísta francês Serge Latouche (4). No seu livro “Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno” (editado em Portugal pelas Edições 70)(5), Latouche faz um diagnóstico da situação actual nos países ocidentais e explica o conceito de decrescimento (que apelida de “utopia concreta”) que se baseia na implementação dos oito Rs: reavaliar, reconceptualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reduzir, reutilizar e reciclar. O autor junta a estes o R de resistir para realçar a importância de realizar a mudança dentro do sistema, mas deixa claro que é necessária uma rotura com o capitalismo predatório e desumanizado que nos é apresentado como único sistema viável para manter o progresso e bem-estar. O decrescimento é descrito como uma revolução reformista e transformadora que depende de acções, quer ao nível individual (p.ex. simplicidade voluntária, mudança de hábitos de consumo), quer colectivo (p.ex. ecovilas, associações locais, movimento de transição). Finalmente o decrescimento é apresentado também como programa político com medidas concretas conducentes à indispensável transição das actuais sociedades consumistas e insustentáveis para um novo modelo social mais ecológico, resiliente e humano. Latouche dará uma conferência na Fundação Gulbenkian no dia 8 de Março (18h30) e um seminário nos dias 9 e 10 de Março (CIDAC).

 

 Notas

1 - http://pt.wikipedia.org/wiki/Decrescimento_(economia)

http://degrowthpedia.org/index.php?title=Main_Page

2 - http://en.wikipedia.org/wiki/The_Limits_to_Growth

3 - http://events.it-sudparis.eu/degrowthconference/en/

4 - http://www.institutohipocrates.pt/index.php/medicinas-nao-convencionais/ecologia/230-serge-latouche-porta-voz-da-filosofia-do-decrescimento.html

5 - http://www.edicoes70.pt/site/node/329

 

Para saber mais sobre o decrescimento:

 

Livros, artigos & sites em português:

- Artigo sobre capitalismo e decrescimento (Diário Liberdade): http://www.diarioliberdade.org/index.php?option=com_content&view=article&id=11393:o-novo-comportamento-do-capital-ja-comecou-o-decrescimento&catid=100:outras-vozes&Itemid=21

- Artigo sobre Hervé Kempf no Público: http://www.publico.pt/Sociedade/os-europeus-estao-preparados-para-um-movimento-ecologico_1470187

- Artigo de John Bellamy Foster (Red Pepper, 2010): http://www.esquerda.net/artigo/decrescer-ou-morte

- Joan Martinez Alier, Decrescimento económico socialmente sustentável (2009): http://gaia.org.pt/decrescimento/martinezalier

- Posts do blog Areia dos Dias: http://areiadosdias.blogspot.com/2012/02/crescimento-decrescimento.html

http://areiadosdias.blogspot.com/2012/01/divida-publica-crise-economica-e.html

- Blog sobre decrescimento: http://odecrescimento.blogspot.com/

 

Livros, artigos & sites em inglês ou francês:

- Degrowthpedia: http://degrowthpedia.org/index.php?title=Main_Page

- Degrowth conference: http://www.degrowth.eu/

- Décroissance: http://www.decroissance.org/

- Artigo (ATTACGermany) – Passadakis & Schmelzer 2010:

http://postwachstum.net/2010/11/23/12-lines-of-flight-for-a-just-degrowth-economy/

- Artigo sobre decrescimento (Monthly Review):

http://monthlyreview.org/2011/01/01/capitalism-and-degrowth-an-impossibility-theorem

- “Questioning economic growth”, Peter Victor, Nature 2010: http://www.nature.com/nature/journal/v468/n7322/full/468370a.html

- The limits to growth (1972): http://en.wikipedia.org/wiki/The_Limits_to_Growth

http://www.sustainer.org/pubs/limitstogrowth.pdf

- Tim Jackson, Prosperity without growth: Economics for a Finite Planet (Earthscan Publications, 2009): http://www.sd-commission.org.uk/publications.php?id=914

- Richard Heinberg, The end of growth (2011): http://richardheinberg.com/the-end-of-growth

- “Growth isn’t possible” (The New Economics Foundation, 2010): http://www.neweconomics.org/publications/growth-isnt-possible

- Manifesto “Dívida pública, crise económica e decrescimento feliz”:

http://www.decroissance.org/?chemin=textes/Sintesi-FR.htm

- Partido pelo decrescimento (França): http://www.partipourladecroissance.net/

- Jornal: http://www.ladecroissance.net/

- Cinco estratégias do decrescimento: http://degrowthpedia.org/index.php?title=What_Does_Degrowth_Mean%3F

- 3rd Int. Conference on Degrowth (Venice, Sept. 2012): http://degrowthpedia.org/index.php?title=Third_international_conference_Venice_2012 

 

Vídeos:

- Who killed economic growth (6’30): http://www.youtube.com/watch?v=uASzJPI6oo4 (c/ leg PT)

(baseado em “The end of growth” de R. Heinberg)

- Life after growth (25’): http://vimeo.com/10871269

- Clip do filme “Earth Days” (http://video.pbs.org/video/1463378089/) sobre “Limits to growth”: http://www.youtube.com/watch?v=kIQvBYOtgMg

- Video sobre o livro “Limits to growth”: http://www.youtube.com/watch?v=9y46hJCaHVQ

- “There’s no tomorrow” (co-production Post Carbon Inst.):

http://topdocumentaryfilms.com/theres-no-tomorrow/

- The impossible hamster: http://www.youtube.com/watch?v=bqz3R1NpXzM

http://www.impossiblehamster.org/

- Animation on sustainability (2’): http://www.youtube.com/watch?v=B5NiTN0chj0

- In Transition 1.0 (Transition movement): http://www.youtube.com/watch?v=HU3EihPIbBI

- Causes: About that butterfly… (animation on globalization) (3’18):

http://www.youtube.com/watch?v=QeXvtz0_Ex0

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 00:49

31 de Dezembro de 2011

 

 

You cannot evict an idea whose time has come (Occupy Wall Street - OWS)

They tell you we are dreamers. The true dreamers are those who think things can go on indefinitely the way they are. We are not dreamers. We are the awakening from a dream that is turning into a nightmare. Slavoj Zizek (discurso em OWS, Out. 2011)

 

O ano que está acabar foi marcado por um conjunto de acontecimentos extraordinários. Na sua génese está uma tomada de consciência por parte de movimentos cívicos que, espontaneamente e em vários pontos do globo, tomaram as ruas e praças das suas cidades:

http://tomalaplaza.net/

http://takethesquare.net/

http://occupywallst.org/

http://www.occupytogether.org/

Embora as razões e os contextos sejam diferentes, as movimentações que ocorreram no norte de África e Médio Oriente, em Espanha (Acampada Sol, Indignados), na Grécia, nos Estados Unidos (OWS) e em muitos outros países, incluindo Portugal, têm em comum o facto de serem protagonizadas por cidadãos anónimos (“grassroot movements”) e não por partidos, sindicatos ou elites intelectuais.

Perante a evidência do impacte que estes movimentos tiveram e continuarão a ter, os ‘media’ não puderam ignorá-los e dão-lhes lugar de destaque nos balanços do ano:

http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=85ab6501-3051-45b9-acd9-eda87148d284

http://economico.sapo.pt/noticias/clube-dos-99-enche-as-ruas-em-2011_134635.html

Pese embora algumas comparações abusivas entre alguns destes movimentos (http://attacportugal.webnode.com/news/os%20banqueiros%20s%c3%a3o%20os%20ditadores%20do%20ocidente%20-%20robert%20fisk/) a projecção mediática tem a vantagem de lhes dar visibilidade e trazer a discussão sobre as razões dos protestos para praça pública.

Em particular a revista Time elegeu “o manifestante” (“the protester”) como personalidade do ano e tem um extenso artigo sobre os diferentes movimentos e os seus protagonistas no número especial de Dezembro:

http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,2101745_2102132,00.html

http://occupydemocracyresources.blogspot.com/2011/12/original-photo-and-time-cover-side-by.html

Fontes de inspiração para estes movimentos terão sido os livros “Indignai-vos” e “Empenhai-vos” de Stéphane Hessel, aos quais já tinha aqui aludido: http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/4841.html

A motivação central dos movimentos europeus e norte-americanos foi claramente a profunda crise económica e social provocada pela elite politica e financeira global. No entanto, e como já aqui referi várias vezes, não podemos esquecer que estamos perante uma profunda crise de valores com muitas outras componentes, em particular a ambiental. É por isso que embora muitos dos movimentos não apresentem ainda propostas concretas para a resolução dos vários problemas, há que ter a consciência de que, como afirma o pensador norte-americano Charles Eisenstein num artigo de opinião sobre OWS (http://www.realitysandwich.com/occupy_wall_street_no_demand_big_enough), qualquer exigência ficará aquém do que é necessário para mudar o nosso rumo: uma mudança radical de atitude e de valores. O sistema actual baseado no consumo, na acumulação de bens materiais e no crescimento permanente é pura e simplesmente insustentável e irracional: não só não conduz a um aumento global do bem-estar dos cidadãos, como está a ter consequências desastrosas, quer em termos sociais, quer ambientais. Precisamos urgentemente de interromper este ciclo destrutivo.

Como escrevi anteriormente, é chegado o tempo duma revolução global – pacífica, paciente, inteligente, sensata e solidária. A violência, a impaciência, a estupidez, a insanidade e a ganãncia que nos trouxeram até aqui quase nos deixaram sem futuro.

Perante os fortes indícios do renascimento de uma nova cidadania global parece-me haver motivos para manter viva a esperança numa verdadeira mudança na entrada do ano de 2012.

 

Don’t be afraid to really want what you desire” S. Zizek (OWS, Oct. 2011)

We the people are awakening and we will not go back to sleep” C. Eisenstein (Reality Sandwich, Oct. 2011)

 

 

Para saber mais sobre o movimento OWS e outros Occupy ver:

http://roarmag.org/

http://www.alternet.org/occupywallst/

http://www.huffingtonpost.com/news/occupy-wall-street

http://occupydemocracyresources.blogspot.com/

http://www.guardian.co.uk/news/datablog/2011/oct/17/occupy-protests-world-list-map

http://en.wikipedia.org/wiki/Occupy_movement

http://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_de_2011_na_Espanha

 

Vídeos sobre OWS:

http://www.youtube.com/watch?v=S-uTT3u12LI

http://www.desrealitat.org/2011/10/mckenzie-wark-on-occupy-wall-street-how.html

http://www.youtube.com/watch?v=BRtc-k6dhgs

 

Informação sobre movimentos cívicos nacionais:

http://www.15outubro.info/

http://acampadalisboa.wordpress.com/

http://www.15deoutubro.net/

http://15out-porto.blogspot.com/

http://indignadoslisboa.net/

http://movimentogeracoes.org/

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemsic/2011/12/16/contracorrente

http://sicnoticias.sapo.pt/programas/jornaldanoite/article1067257.ece

(a partir do minuto 19)

 

Depoimentos de pensadores e notáveis sobre o OWS:

 

Charles Eisenstein:

http://www.realitysandwich.com/occupy_wall_street_no_demand_big_enough

http://charleseisenstein.net/essays/where-next-for-occupy/

 

Paul Krugman:

http://www.nytimes.com/2011/10/07/opinion/krugman-confronting-the-malefactors.html

http://www.esquerda.net/artigo/krugman-apoia-ocupar-wall-street

 

Slavoj Zizek:

http://takethesquare.net/2011/10/11/zizek-at-wall-street-%e2%80%9cdon%e2%80%99t-fall-in-love-with-yourself%e2%80%9d-occupywallstreet-ows/

 

Noam Chomsky:

http://www.alternet.org/economy/152933/noam_chomsky_speaks_to_occupy%3A_if_we_want_a_chance_at_a_decent_future,_the_movement_here_and_around_the_world_must_grow?page=entire

 

Michael Moore:

http://www.huffingtonpost.com/2011/10/29/michael-moore-blogs-i-can_n_1065381.html

http://www.huffingtonpost.com/2011/10/28/michael-moore-occupy-oakland_n_1064775.html

http://michaelmoore.com/words/mike-friends-blog/where-does-occupy-wall-street-go-here

 

Arundhati Roy:

http://www.democracynow.org/seo/2011/11/15/arundhati_roy_occupy_wall_street_is

 

Joe Rogan:

http://www.youtube.com/watch?v=DjMcDXGkR8I

publicado por transicao_ou_disrupcao às 19:06

26 de Dezembro de 2011

 

 

Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago (Cadernos de Lazarote, Diário III)

 

A fúria das privatizações já começou com o ‘excelente’ negócio da venda do BPN.

http://aventar.eu/2011/08/06/assim-se-delapida-um-pais/

http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Artigo/CIECO012755.html

Uma fatia da EDP vai passar para os chineses e a REN deve ir pelo mesmo caminho.

http://aeiou.expresso.pt/privatizacao-da-ren-com-quatro-interessados=f682895

E daí talvez não…

http://economia.publico.pt/Noticia/ren-aprova-adiamento-de-parte-da-privatizacao-dos-51-do-estado_1519892

E ainda a procissão vai no adro…

http://sol.sapo.pt/inicio/Economia/Interior.aspx?content_id=31315

Parece é que o negócio não foi lá muito transparente:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=525637

O que não há dúvida é que há muitos a cobiçar o que temos para vender:

http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1255461-portugal-um-premio-cobicado-pelos-paises-emergentes

E dá para perceber porquê:

http://aeiou.expresso.pt/-tap-eleita-a-melhor-companhia-aerea-da-europa=f692068

Mas não se pense que tudo isto saiu da cabeça do actual governo e do ‘acordo’ com a troika – o governo anterior também já estava a preparar-se para vender as “jóias da família”:

http://economia.publico.pt/Noticia/governo-estuda-privatizar-tap-ctt-edp-galp-ren-e-seguradoras-da-cgd-1426140

O problema é que a compulsão parece ser contagiosa e já há quem queira vender o património histórico:

http://www.publico.pt/Local/tentativa-de-venda-de-comboio-historico-da-cp-suscita-escandalo-e-boicote-na-europa-1525701

E a seguir vai o quê, a Torre de Belém? Os Jerónimos? E já agora porque não o Fado??!!...

publicado por transicao_ou_disrupcao às 23:24

21 de Novembro de 2011

 

Vivemos uma crise sem precedentes, quer pela dimensão, que é global, quer pela complexidade, dadas as suas múltiplas componentes: económica, financeira, social, ambiental, energética, populacional, etc. A crise mais profunda é no entanto uma crise de valores. Mas dessa pouco se fala. Fala-se quase exclusivamente da crise económica, em particular a das dívidas dos estados, e nas formas de a resolver – designadamente através de brutais medidas de austeridade impostas pelos governos de vários países. Ultimamente já se vai ouvindo dizer que aquelas medidas, para além da enorme injustiça social de que enfermam, irão conduzir à recessão e impedem a retoma do crescimento económico. No entanto, o que muitos se recusam a ver é que o crescimento económico que tivemos nos últimos anos foi pura e simplesmente insustentável e irracional: não só não conduziu a um aumento global do bem-estar dos cidadãos, como está a ter consequências desastrosas, quer em termos sociais, quer ambientais.

Não vou aqui fazer mais uma prelecção sobre a crise – já chega o bombardeamento diário dos media. Só queria deixar a ideia de que não podemos responsabilizar apenas governantes e políticos pela situação actual, nem esperar que sejam eles a resolvê-la. Como escrevi no post anterior, todos compactuamos com o sistema (nós somos o sistema!) ao corresponder aos apelos ao consumo desenfreado, sem questionar como o fazemos e porque o fazemos. Para mudarmos o sistema, temos de ser nós a mudar primeiro. Daí a crise de valores de que falava.

 

Uma das consequências incontestáveis da crise é a deterioração das condições de vida, mesmo nos países ditos desenvolvidos. A prová-lo estão os recentes dados do Eurostat divulgados recentemente pelo Programa Europeu de Apoio Alimentar a propósito do Dia Mundial da Pobreza Extrema (18 Out.): 79 milhões de pessoas vivem na Europa abaixo do limiar de pobreza, 43 milhões de pessoas estão em risco de carência alimentar e 30 milhões sofrem de subnutrição (num universo de 500 milhões). Foi ainda revelado que estão previstos para 2012 cortes de cerca de 20% nas verbas do Programa Europeu de Apoio Alimentar a Carenciados. Paradoxalmente, registam-se actualmente em países europeus perdas que podem ir dos 30 aos 50% na cadeia de produção, distribuição e consumo dos alimentos, para além de existirem também problemas de consumo excessivo de alimentos que levaram ao aumento da incidência da obesidade e da diabetes.

 

No passado dia 26 de Outubro decorreu na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro em Telheiras uma sessão dedicada ao desperdício alimentar co-organizada pela Iniciativa de Transição em Telheiras (http://ecotelheiras.wordpress.com/) e pelo Movimento Gerações (http://movimentogeracoes.org):

http://ecotelheiras.wordpress.com/2011/11/18/aproveitar-o-desperdicio-alimentar-eou-nao-desperdicar/

A sessão incluiu o visionamento do documentário “Os respigadores e a respigadora” (Les glaneurs et la glaneuse) de Agnès Varda, seguido do comentário de Sofia Guedes Vaz, investigadora na área do consumo sustentável do CENSE (Centro de Investigação do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Fac. Ciências e Tecnologia da Univ. Nova de Lisboa) e Membro da equipa do projecto PERDA (Projecto de Estudo e Reflexão para o Desperdício Alimentar) que venceu recentemente o “Prémio Ideias Verdes Fundação Luso-Expresso2011”.

Aquele documentário, que foi realizado em 2000, mostra uma realidade que nessa altura poucos conheciam. A actividade de respigar, outrora reconhecida pela sociedade, tornou-se num acto marginal, mas que constitui para muitos dos que a fazem uma questão de sobrevivência. Os respigadores contemporâneos retratados neste documentário, que vivem do que a maioria desperdiça ou rejeita, revelam-nos uma dimensão da nossa sociedade que se caracteriza pelo excesso e pelo desperdício. Penso que o documentário se tornou agora ainda mais pertinente: é em momentos de crise como aquele que atravessamos que a capacidade de resiliência humana é posta à prova. Mas também é um excelente pretexto para nos ajudar a reflectir e estimular a nossa criatividade. Marina Silva, ex-candidata à Presidência do Brasil e ex-ministra do ambiente, falou recentemente na Gulbenkian a propósito do relatório “Our common future” (http://www.gulbenkian.pt/index.php?article=3313&format=404) e defendeu a necessidade duma “desadaptação criativa” para contrariar a agudização da crise ambiental e social que vivemos. Creio que é esse o caminho que precisamos de tomar no sentido de mudar de paradigma na produção e consumo de alimentos.

 

Seguem mais algumas pistas sobre este tema:

http://reapnimprensa.blogspot.com/2011/10/reflexao-sobre-desperdicio-alimentar.html

http://sicnoticias.sapo.pt/vida/2011/10/17/cerca-de-43-milhoes-de-pessoas-em-risco-de-carencia-alimentar-na-europa

http://www.rotary.pt/2010-2011/Noticias/noticias/dia-mundial-pobreza/pobreza.html

http://www.agenciafinanceira.iol.pt/economia-nacional/pobreza-banco-alimentar-alimentos-agencia-financeira/1289921-5205.html

http://www.publico.pt/Sociedade/ha-43-milhoes-de-pessoas-sem-dinheiro-para-pagar-refeicao-diaria-1516836

http://tv2.rtp.pt/noticias/?headline=46&visual=9&tm=8&t=Os-ricos-%93estao-a-rir-se-do-que-esta-a-acontecer-no-pais%94.rtp&article=489377

 

Para visionar o documentário "Os respigadores e a respigadora":

http://www.youtube.com/watch?v=dMLUTJIckGw (c/ leg. PT)

http://www.youtube.com/watch?v=gcduo8-GjFs

publicado por transicao_ou_disrupcao às 01:04

23 de Outubro de 2011

 

A jornada de protesto de 15 de Outubro foi histórica não só pela dimensão mundial que teve, mas por ter resultado de uma mobilização cidadã – e não de sindicatos, partidos ou outros organismos institucionalizados. Em Lisboa foi muito emocionante testemunhar o mar de gente de todas as idades e condições sociais que desfilou até S. Bento, mostrando bem que as pessoas não estão a adormecidas e tomaram consciência de que algo está profundamente doente no nosso modelo de sociedade que, conduzido por uma elite cega pelo poder e pelo dinheiro e que parece ter perdido a noção do bem comum, cada vez mais nos oprime e nos destrói o futuro.

Mas aquele evento foi apenas um passo. Agora é preciso não deixar esmorecer a mobilização e fazer ver aos 98% que ficaram em casa que têm tudo a perder se não fizerem nada. Custa-me ver a apatia ou alienação de muitos e o desanimo e medo de muitos mais que dizem que os protestos não levam a lado nenhum. Lamentavelmente muitas dessas pessoas encontram-se em negação e recusam ver que lhes venderam a ilusão de que tinham direito a ter tudo o que quisessem, esquecendo o dever de cuidar do bem comum.

Aqueles que já tomaram consciência têm a responsabilidade de não esquecer que todos nós somos o sistema – os 99%, mas também os 1% ! E se é preciso que o sistema mude, somos nós que temos de mudar em primeiro lugar! Temos que questionar porque compactuámos com um sistema que nos leva a consumir e possuir sem pensar como o fazemos e porque o fazemos. Temos que tomar consciência da complexidade e dimensão da crise em que estamos mergulhados, que é antes de mais uma crise global de valores e de percepção. É por isso que apelo a que não se deixem ficar no conforto do lar, em frente ao televisor (que tanto e tão bom entretenimento nos promete, subjugando-nos à alienação e à passividade). Procurem informar-se, conversem com os vossos familiares e amigos – desintoxiquem-se! Se ainda não têm a certeza de que algo está profundamente errado naquilo que têm vindo a fazer aqueles nos governam, vão ‘clicando’ nos links que vos deixo. Se, depois disso, não se sentirem revoltados e com vontade de fazer alguma coisa para parar esta autêntica demência que colocou o dinheiro acima das pessoas, é porque as vossas qualidades humanas estão a definhar dentro de vós. Ainda vão a tempo de fazê-las renascer!... Há muitas razões para a indignação e muitas mais para o empenho na construção dum mundo melhor - aquele que o nosso coração nos diz ser possível. Cada um deve contribuir com a sua criatividade e as suas ideias para mudar um sistema que, se não for travado, nos levará inexoravelmente para o colapso social e ambiental.

No novo caminho que temos de trilhar vai ser preciso muita paciência, inteligência e persistência.

Faço apenas um apelo mais: se a situação evoluir no sentido do colapso generalizado, onde reinará a intolerância, a irracionalidade e a violência, agradeço que não me venham dizer: “Tinhas razão!”

 

Nacional:

http://aeiou.expresso.pt/veja-os-rendimentos-de-15-politicos-portugueses-antes-e-depois-de-passarem-pelo-governo-grafico-animado=f680329

 

http://aventar.eu/2011/10/13/pedro-passos-coelho-best-of-2010-2011/

http://www.youtube.com/watch?v=gNu5BBAdQec

 

http://aventar.eu/2011/10/17/quanto-gasta-a-edp-em-comunicacao/

 

http://www.dinheirovivo.pt/Estado/Artigo/CIECO018286.html

http://aventar.eu/2011/10/17/barragem-do-tua-quem-fica-a-perder/

 

http://ktreta.blogspot.com/2011/10/treta-da-semana-mais-uns-passos-direita.html

 

http://areiadosdias.blogspot.com/2011/10/vamos-la-ver-se-eu-percebi-bem.html

 

Internacional:

http://www.esquerda.net/artigo/merkel-quer-mais-dinheiro-para-banca

 

http://economia.publico.pt/Noticia/banco-de-inglaterra-injecta-75-mil-milhoes-de-libras-na-economia-1515312

 

http://economia.publico.pt/Noticia/bce-lancaprograma-suplementar-para-refinanciar-a-banca-1515297

 

http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief-cover/1040331-banco-dexia-nacionalizado-ao-mais-alto-custo

 

http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief-cover/1048811-milhares-de-milhoes-para-os-bancos

 

http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief-cover/1032401-chegou-hora-da-recapitalizacao

 

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=511613

 

http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2065979&page=-1

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 22:30

13 de Outubro de 2011

 

 

Aproxima-se uma data – 15 de Outubro de 2011 – que pode ficar marcada por um evento extraordinário: o de um movimento de cidadania e solidariedade internacional de dimensões inéditas. Inspirado por diferentes iniciativas espontâneas de cidadãos que vieram para as ruas e praças em vários países manifestar o seu descontentamento e a sua indignação, surge agora um movimento global que pretende recuperar o direito dos povos a decidir o seu futuro.

 

Internacional: http://15october.net/

http://15o.democraciarealya.es/ 

Manifesto: http://www.publico.pt/Mundo/o-manifesto-1515960

 

World vs. Wall Street: http://www.avaaz.org/en/the_world_vs_wall_st

http://www.avaaz.org/po/the_world_vs_wall_st/

Occupy Wall Street: http://occupywallst.org/

http://www.occupytogether.org/

We are the 99%: http://wearethe99percent.tumblr.com/

 

Lisboa: http://www.15deoutubro.net/

Manifesto: http://www.15deoutubro.net/manifestos/lisboa.html

 

Porto: http://15out-porto.blogspot.com/

Manifesto: http://15out-porto.blogspot.com/2011/10/manifesto-15-de-outubro-porto.html

 

São várias as causas comuns, mas podem ser resumidas num único desiderato: travar a globalização ditada por elites politicas e financeiras que geraram uma iniquidade económica e social inaudita e levaram o mundo à beira de uma catástrofe ecológica.

 

Há momentos em que o passo lento da evolução não se compadece com a premência da acção perante a situação de emergência social e ambiental em que nos encontramos. Chegou o tempo duma revolução global – mas pacífica, paciente, inteligente, sensata e solidária. A violência, a impaciência, a estupidez, a insanidade e a ganãncia que nos trouxeram até aqui quase nos deixaram sem futuro.

É preciso unir forças e fazer ouvir a nossa voz!

É preciso pensar o impensável!

 

(Imagem: Gui Castro Felga - http://oblogouavida.blogspot.com/)

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 00:29

06 de Outubro de 2011

 

Para ilustrar este tema transcrevo aqui o manifesto “J’accepte”. Trata-se de um texto escrito por um anónimo em Setembro de 2003 para assinalar os dois anos passados sobre o 11 Setembro, assinado com a frase “fait par amitié sur la terre”, publicado na www (p.ex. http://www.citerre.org/contratmct.htm) e lido numa rádio francesa (http://nseo.com/jaccepte.htm). O texto centra-se no contrato social que cada um de nós subscreve tacitamente ao acordar todos os dias e não fazendo nada para mudar os termos desse contrato. Mais do que uma mera crítica social o texto destaca os factos perturbantes decorrentes da nossa inegável tendência para o conformismo, a indiferença e a desresponsabilização.

 

Mais recentemente foi realizado um vídeo baseado no mesmo texto por TerPacific (http://terpacific.marcm.free.fr/):

http://www.youtube.com/watch?v=P2ZgHdshogE (versão original em francês)

http://www.youtube.com/watch?v=Zt2PsmDTZOk (versão inglesa)

http://www.desrealitat.org/2011/07/el-contratolo-aceptas.html (versão em castelhano)

 

Tradução livre do texto original em francês (que pode ser encontrado em http://www.citerre.org/contratmct.htm)

 

Eu aceito, o contrato tácito do nosso “mundo livre”

 

Pouco importam as nossas crenças ou as nossas ideias políticas, o sistema posto em prática no nosso “mundo livre” assenta no acordo tácito dum tipo de contrato subscrito por cada um de nós e que inclui as seguintes linhas gerais:

 

1) Aceito a competição como base do nosso sistema, mesmo estando ciente que este modo de operação gera frustração e raiva na grande maioria de perdedores;

 

2) Aceito ser humilhado ou explorado na condição de me ser dada oportunidade de humilhar ou explorar todos aqueles que ocupam uma posição inferior a mim na pirâmide social;

 

3) Aceito a exclusão social dos marginais, dos inadaptados e dos fracos porque eu acredito que a inclusão social tem os seus limites;

 

4) Aceito pagar aos bancos para investir os meus ganhos conforme a sua conveniência, e que eles não me paguem dividendos dos seus lucros gigantescos (que serão utilizados para roubar os países pobres, o que aceito implicitamente). Também aceito que me cobrem uma comissão elevada por me emprestarem dinheiro, que não é mais do que o de outros clientes;

 

5) Aceito que se congelem ou se rejeitem toneladas de alimentos para evitar que os preços baixem, em vez de oferecê-los aos necessitados ou permitir que centenas de milhares de pessoas não morram de fome a cada ano;

 

6) Aceito que seja proibido acabar com a própria vida rapidamente, mas tolero fazê-lo lentamente pela inalação ou ingestão de substâncias tóxicas autorizadas pelos Estados,

 

7) Aceito que se faça a guerra para fazer prevalecer a paz. Aceito que em nome da paz, a despesa principal dos Estados se destine ao orçamento da defesa. Aceito ainda que se criem conflitos artificialmente para escoar os stocks de armas e estimular a economia mundial;

 

8) Aceito a hegemonia do petróleo na nossa economia, apesar de ser uma energia cara e poluente, e concordo que se evite qualquer tentativa de o substituir, mesmo que venhamos a descobrir formas de produzir energia gratuitas e ilimitadas, o que seria a nossa perda;

 

9) Aceito que se condene o assassinato do nosso próximo, a menos que os Estados decretem que se trata dum inimigo e nos encorajem a matá-lo;

 

10) Aceito que se divida a opinião pública pela criação de partidos políticos de esquerda e direita que gastarão o seu tempo a lutar entre si, dando a impressão de fazerem assim avançar o sistema. Aceito também todos os tipos de divisões possíveis, desde que me permitam concentrar a minha raiva contra os inimigos designados e de quem agitam o retrato diante dos meus olhos;

 

11) Aceito que o poder de moldar a opinião pública, outrora detido pelas religiões, esteja agora nas mãos de empresários não eleitos democraticamente e totalmente livres para controlar os Estados, porque estou convencido do bom uso que lhe darão;

 

12) Aceito que a felicidade se resume ao conforto, o amor ao sexo e a liberdade à satisfação de todos os desejos, pois é isso que a publicidade me transmite diariamente. Quanto mais infeliz, mais consumirei, cumprindo assim o meu papel na contribuição para o bom funcionamento da nossa economia,

 

13) Aceito que o valor de cada pessoa seja medido pelo tamanho da sua conta bancária, que se aprecie a sua utilidade em termos da sua produtividade, em vez da qualidade, e que seja excluída do sistema se não for suficientemente produtiva;

 

14) Aceito que se pague principescamente a jogadores de futebol e actores, e muito menos aos professores e médicos encarregues da educação e da saúde das gerações futuras;

 

15) Aceito que tenhamos desvalorizado socialmente os idosos, cuja experiência poderia ser-nos útil, pois sendo nós a civilização mais avançada do planeta (e, sem dúvida, do universo) sabemos que experiência não pode ser compartilhada nem transmitida;

 

16) Aceito que me sejam apresentadas diariamente notícias negativas e assustadoras do mundo, para que eu possa apreciar a normalidade da nossa situação e a minha sorte de viver no Ocidente. Sei que manter o medo nas nossas mentes só pode ser benéfico para nós próprios;

 

17) Aceito que os industriais, militares e políticos se reúnam regularmente para, sem nos consultar, tomar decisões que afectam o futuro da vida e do planeta;

 

18) Aceito consumir carne bovina tratada com hormonas, sem que esse facto me seja explicitado. Aceito que o cultivo de OGM se vá espalhando por todo o mundo, permitindo que os conglomerados agro-alimentares patenteiem os alimentos, recolham os dividendos resultantes e mantenham sob o seu jugo a agricultura mundial;

 

19) Aceito que os bancos internacionais emprestem dinheiro aos países que pretendam armar-se e lutar entre si, e escolher assim aqueles que fazem a guerra e aqueles que não a farão. Estou ciente de que é melhor financiar ambos os lados para ter certeza de ganhar dinheiro, e perpetuar os conflitos tanto tempo quanto possível, a fim de pilhar os seus recursos integralmente caso não consigam pagar os seus empréstimos;

 

20) Aceito que as multinacionais se abstenham de aplicar o progresso social do Ocidente nos países desfavorecidos. Considerando que já é uma melhoria dar-lhes trabalho, prefiro que se usem as leis em vigor nesses países que permitem o trabalho infantil em condições desumanas e precárias. Em nome dos direitos humanos e do cidadão, nós não temos o direito de ingerência nos assuntos internos desses países;

 

21) Aceito que os políticos sejam de honestidade duvidosa e por vezes até mesmo corruptos. Penso aliás que isso é normal dadas as pressões que eles enfrentam. Pelo contrário, a maioria dos cidadãos deve estar sujeita a tolerância zero;

 

22) Aceito que as empresas farmacêuticas e os fabricantes de alimentos vendam aos países pobres produtos fora de validade ou utilizem substâncias cancerígenas proibidas no Ocidente,

 

23) Aceito que o resto do mundo, ou seja, quatro mil milhões de pessoas, possa pensar de forma diferente desde que não venha expressar as suas crenças na nossa terra e muito menos que tente explicar a nossa História à luz das suas noções filosóficas primitivas;

 

24) Aceito a ideia de que só há duas possibilidades na natureza, a saber, caçar ou ser caçado. E se somos dotados duma consciência e duma linguagem, certamente não é para fugir a essa dualidade, mas para justificar por que agimos dessa forma,

 

25) Aceito considerar o nosso passado como uma série ininterrupta de conflitos, de conspirações políticas e intenções hegemónicas, mas sei que tudo isso agora já não existe porque estamos no auge da nossa evolução, e que as únicas regras que governam o nosso mundo são a busca da felicidade e da liberdade de todos os povos, como ouvimos incessantemente nos discursos dos nossos políticos;

 

26) Aceito sem discutir e considero como verdades todas as teorias propostas para explicar o mistério das nossas origens. E aceito que a natureza tenha dispendido milhões de anos para criar um ser humano, cujo único passatempo é a destruição da sua própria espécie, durante os breves momentos da sua existência;

 

27) Aceito a procura do lucro como o objectivo supremo da Humanidade, e a acumulação de riqueza como o maior feito da vida humana,

 

28) Aceito a destruição das florestas, a quase extinção dos peixes nos rios e oceanos. Aceito o aumento da poluição industrial e da disseminação de venenos químicos e elementos radioactivos na natureza. Aceito o uso de todo o tipo de aditivos químicos nos meus alimentos, pois estou convencido que se os colocam lá é porque são úteis e seguros;

 

29) Aceito a guerra económica que grassa no planeta, mesmo que sinta que ela nos levará a uma catástrofe sem precedentes;

 

30) Aceito esta situação, e admito que não posso fazer nada para mudá-la ou melhorá-la;

 

31) Aceito ser tratado como gado, porque afinal de contas, acho que não valho mais;

 

32) Aceito não fazer qualquer pergunta, fechar os olhos perante tudo isto, e não opor qualquer resistência, porque estou muito ocupado com a minha vida e as minhas preocupações. Aceito mesmo defender até a morte este contrato, se tal me for pedido;

 

33) Aceito pois de alma e coração e de forma definitiva, esta matriz triste que foi colocada diante dos meus olhos para me impedir de ver a realidade das coisas. Eu sei que o fazem para o meu próprio bem e para o de todos, e estou muito agradecido.

 

(11 de Setembro de 2003)

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 01:00

27 de Setembro de 2011

 

 

A interrogação não podia ser mais pertinente. A profunda e complexa crise que atravessamos parece convocar o momento certo para uma revolução contra os que, detendo ou controlando o poder, criaram a ilusão de uma sociedade de bem-estar, que prometia um futuro ainda melhor para as gerações vindouras. É por demais evidente que não só o bem-estar é aparente e muito poucos usufruem dele, como o futuro que se vislumbra para as próximas gerações é tudo menos risonho.

Potencialmente, os cidadãos teriam a capacidade de mudar este estado de coisas se se conseguissem unir perante um sistema de interesses que subjugou o bem comum aos privilégios de uma minoria gananciosa e egoísta. No entanto, há quem defenda que a nova revolução foi levada a cabo nas últimas décadas, não pelos oprimidos, mas sim pelos poderosos que seduziram e manipularam a maioria dos cidadãos a sacrificar os seus bens e o seu futuro para satisfazer os desejos e caprichos da elite endinheirada que os oprime e controla.

 

Chris Hedges afirma no artigo “A Brave New Dystopia”, publicado no webzine Truthdig.com, que este estado de coisas não é inesperado e foi aliás previsto por dois grandes visionários do século XX em dois livros marcantes: Aldous Huxley com “Brave new world” (1931) e George Orwell com “1984” (1949): http://www.commondreams.org/view/2010/12/27-1

(tradução brasileira: http://juliolessa.blogspot.com/2010/12/chris-hedges-orwell-estava-certo-huxley.html)

 

Igualmente relevante é a reflexão proposta por Sandra Monteiro num artigo recente (O cidadão não praticante) na edição portuguesa do “Le Monde Diplomatique” sobre os modos de exercer a cidadania (http://pt.mondediplo.com/spip.php?article788) onde afirma “Um cidadão praticante ocupa o espaço público, utiliza os serviços públicos; critica para os defender e propõe para exigir mais rigor, qualidade e atenção às finalidades sociais.”

 

Para ajudar a aprofundar este assunto proponho ainda um interessante vídeo-documentário intitulado “Time for change” (VPRO Backlight, Holanda 2010) que contrapõe ao conceito clássico da revolução de massas um novo conceito de pequenas revoluções levadas a cabo por indivíduos que conseguem demonstrar como o cidadão anónimo pode fazer a diferença: http://www.youtube.com/watch?v=IqpVe9kNbhg

 

Há várias maneiras de fazer revoluções mas antes de mais há que ajudar as pessoas a tomar consciência da realidade e das suas capacidades individuais de fazer a diferença, e a tirar partido dos conceitos de comunidade e de cooperação que têm vindo a ser menosprezados e destruídos pelos ‘revolucionários’ que usurparam o poder.

 

publicado por transicao_ou_disrupcao às 01:35

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
25
26
27
28

29
30


arquivos
2012:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


subscrever feeds
blogs SAPO